Teo Guerreiros Sem Armas 2011


10 – Conte uma atividade coletiva transformadora.
julho 4, 2010, 1:28 am
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31 de Dezembro de 2009


Há dois dias chove intensamente na cidade, uma enorme frente fria, sobre pelo menos metade do país, nos da a certeza de que a cidade a beira mar e aos pés da mata atlântica terá mais um fim de ano chuvoso.
A virada para 2010 acontece sem cessar a chuva. Em Paraty, milhares de visitantes lotam as pousadas, casas que são alugadas na alta temporada, e também as dos próprios moradores, que recebem parentes e amigos nessa época. Há uma movimentação confusa na rua, ainda que muitos não saiam devido a chuva, outros tantos estão há tanto esperando por esse momento que ignoram completamente o fato de terem que se molhar para comemorarem! A posição geográfica, e a vegetação atlântica fazem da cidade um lugar de alta umidade e inúmeros feriados e verões sob as gotas intermináveis, hora tão fina que quase imperceptível, hora forte o suficiente para dividir as ruas do centro histórico devido ao seu traçado de herança dos portugueses, que arquitetaram as ruas para que a água das marés escoe lavando a cidade até chegar ao mar.
Há um ano praticamente, no dia 8 de Janeiro de 2009, tínhamos vivenciado em Paraty uma inesquecível demonstração da força da natureza. Era madrugada e uma chuva caía sobre a serra que se forma entre Paraty e Cunha, nos limites do Estado do Rio de Janeiro com o Estado de São Paulo. A água que descia ganhando força afunilava-se ao aproximar-se da cidade, resultando numa enorme Tromba D`água que atinge a cidade durante a madrugada. Os bairros e localidades situados as margens e próximos as maiores rios são atingidos de surpresa , sem nenhum aviso, e os estragos que ficaram depois podem ser contados por quase todos moradores daqui. Diferente de como seria no final do ano, a cidade já não estava com um número tão grande de pessoas na cidade, pois passado o ano novo há uma clara diminuição do total de visitantes que facilitou o trabalho para socorrer quem teve sua casa invadida pela água repentinamente, por quem tenha ficado ilhado em ponto onde a água dos rios tenha subido com tal rapidez que impedisse de fugir para um local seguro. Os estragos são muitos e estão por toda parte, prejuízos que levam muito tempo para serem recuperados. E imaginávamos como poderia ser tudo muito pior se aquela chuva fosse uma semana antes, quando a cidade estivesse lotada, com milhares de carros nas ruas, com uma demanda de água, comida e energia muito acima do normal!
Mas dessa vez agora, como que a outra fosse um aviso, foi justamente na noite de réveillon que já acumulavam dois dias de muita chuva . Porém sem poder prever o que poderia de fato vir a acontecer fomos em um grupo de amigos celebrar a chegada de mais um ano num sítio onde moram diversos amigos em uma vila onde de todos os lados se vê o verde e outras tantas cores da natureza. Cerca de 40 pessoas estão no local, a festa esta maravilhosa, uma confraternização de amigos de longa data, e outros mais recentes porém também muito queridos, tudo corre perfeitamente até a surpreendente falta de luz que acontece por volta de 5:10 da manhã do dia primeiro de Janeiro . Imaginamos que a queda de energia pudesse ser no sítio, que não tinha um fornecimento tão confiável, porém com o histórico da cidade, especialmente em épocas de maior movimento, acabar a luz num dia como esses é algo normal. A metade de nós que não somos moradores e não estávamos hospedados no sítio decide então voltar para a cidade, depois de esperar uns 40 minutos e perceber que a luz não voltaria. Começava ali a parte mais estranha de qualquer começo de ano que qualquer um de nós já tenha passado!
Algumas das meninas que tinham deixado seus filhos em casa, estavam preocupadas e com aquele pressentimento de mãe que não se explica e queriam ir embora o quanto antes, mas quando chegamos na entrada do sitio, na parte de dentro haviam dois carros, e lá fora, depois da porteira tinha outros quatro ou cinco. O enorme volume de água das chuvas fez o rio que passa perto do sitio, o maior e que corta a cidade ao meio, transbordar e os dois carros que estavam já ali dentro tinham a água entrando pelas frestas da porta.Para tentar salvar os carro, tentamos empurrá-los para uma parte mais alta, mas não havia espaço e as plantas que a água nos impedia de ver, não permitiam os carro serem empurrados, e o esforço que fazíamos já era inútil. A entrada do sitio estava alagada e para sair tivemos que ir tateando o caminho até a porteira com os pés, temendo ainda pela possibilidade de cobras que são muito abundantes na região que pudessem picar alguém. A parte do grupo que mora nas casas do sítio, correu para subir os móveis para os andares superiores. E nós do grupo que tentava voltar para a cidade íamos em direção dos carros estacionados ao longo da estrada que leva ao sitio, devido a algumas partes alagadas já anteriormente a enchente do rio, alguns carros estava parados mais afastados, uns 300 metros mais ou menos, que nesses momentos são longas distancias. No carro mais próximo iam 4 pessoas e o resto continua andando indo para os outros carros, mas nesse momento uma das meninas decide não ir conosco e ficar com esse grupo que estava no primeiro carro, ela grita para as amigas que vai ficar com eles e que é para continuarem e irem com as pessoas que estava indo na frente, nenhum de nós a ouviu direito e seguimos andando , atravessando trechos alagados, chegamos em outros dois carros parados adiante, que já encontravam-se com a água quase pela metade, um desses é o carro da minha irmã que também mora no sitio, o outro é de um de nós do grupo, mas que pra piorar a situação não sabia onde estava a chave. Uma das meninas começa a passar mal e desmaia, ficamos ainda mais preocupados, seus pés estão dentro da água e então eu a coloco em cima do capô do carro, ela continua respirando, e as meninas dizem que isso acontece sempre com ela, em alguns segundo ela volta e fica muito assustada, tentamos acalmá-la. Temos que sair dali o mais rápido possível, o nível do rio continua a subir, e aquela localidade tinha sido uma das mais afetadas no verão passado. Nesse momento a mãe da menina que ficou com o grupo do primeiro carro liga para a prima dela, e pergunta dela, mas no meio de toda confusão ela não sabe onde ela ficou, e vai ficando ainda mais apreensiva. Eu entrego a ela meu celular e minha camisa e digo para seguirem em frente que vou voltar para achar a garota. Vou correndo o quanto é possível pelas águas, até o momento que esta encobre minhas pernas, ofegante vou atravessando as poças que crescem a cada minuto. No caminho de volta eu vejo um animal na água, é um cachorro nadando para se salvar, ele é pequeno, com os pelos finos e estava muito assustado, eu o agarro e tento acalmá-lo, ele está tremendo inteiro e seu coração está disparado, saímos da área alagada onde ele estava, mas ele volta a tremer mais ainda quando vou me aproximando de outra que temos que passar para voltar ao sítio. Eu o seguro forte para que ele não tente fugir. Quando atingimos a entrada do sítio e vejo os dois carros que tentamos empurrar no começo de tudo, na parte de dentro do sítio, eu tenho uma enorme surpresa ao ver que as únicas partes aparentes deles era o teto. Vou em meio a água passando pela porteira e o cachorrinho começa a se mexer quando percebe que vou passar pela água novamente. Para conseguir passar por onde os carros estão e chegar até as casas, é um trecho mais baixo e a água sobe além do meu ombro, chega no meu pescoço, eu levando os meus braços para segurar o cachorro no alto, evitando que fuja pulando, com esforço alcanço os carros, passo entre eles e chego até as casas, o pessoal que tinha ficado, conseguiu subir alguns moveis, e estavam se comunicando entre si gritando de uma janela de uma casa para outra. Deixo o cachorro ali e aviso que voltei para procurar uma das garotas que tinha ficado, aviso eles para procurarem ela ali no sitio, que ela deveria estar numa das casas, talvez na que tinha sido a festa , que era a mais afastada, e que não poderia deixar o grupo que tinha ido na frente sozinho, que eles precisava de ajuda também. Voltando até os carros alagados, passo nadando novamente entre eles até a porteira do sítio, sigo correndo sem conseguir acreditar em tudo que está se passando, há menos de duas horas estávamos todos curtindo uma festa maravilhosa de ano novo e estávamos nadando entre em águas cheias de cobras, salvando as pressas móveis e animais, reanimando pessoas desmaiadas, buscando gente que tinha ficado pra trás, de um sonho direto para um pesadelo. Passo pelos carros no lugar onde tinha me separado do grupo, e não vejo ninguém ali, continuo pela rua até o final dela, onde chego na rua principal da localidade, está é asfaltada e tem mais casas, as pessoas estão nas janelas olhando para fora, nas casas de dois andares vejo muitas crianças. Vou andando até chegar na ponte que tenho que passar para voltar até a estrada que leva dali até a cidade, o rio transbordou e encobre o acesso da ponte para o outro lado, os moradores dizem que ali não da para passar, então fico esperando e pensando no que fazer, se voltava ou se tentava passar de alguma forma, um morador vem vindo do outro lado e espero que ele passe para eu passar com segurança. Ele consegue e eu vou logo depois, quando atravesso continuo pela estrada, e inesperadamente encontro vindo um amigo de moto, pergunto para ele se ele tinha visto o grupo passando em direção a cidade , ele diz que não e sem saber de tudo que esta acontecendo pergunta da festa, eu digo que esta tudo alagado lá e que eles estão lá ilhado, sem saída, e que eu tive que nadar pra vir de lá. Então subo na moto e voltamos para a cidade. Ao chegar na cidade vejo que a maioria dos bairros estão alagados e as pessoas acordando incrédulas na primeira manhã do ano, vendo aquelas cenas, turistas arrastando suas malas em direção da rodoviária para sair da cidade, carros de bombeiros, a cidade toda sem luz, famílias nas ruas, uma cena de filmes de catástrofes que vivíamos na vida real. Descemos pela avenida de acesso a cidade, a rua que leva até o centro histórico, vamos até lá para ver se encontramos as pessoas que estavam vindo da festa, mas não vejo nenhum deles. Ele diz então que tem que trabalhar logo mais e que tem que ir pra casa dormir, eu vou com ele até sua casa, mas não conseguiria dormir naquele estado, ele me empresta uma bermuda e então eu vou embora, descendo novamente pela avenida principal, chegando até o centro que igualmente esta alagado, a água corre pelas ruas como um rio, indo em direção do mar, a maré que naquela manhã estava cheia piorava a situação. Vou até a casa da menina que eu tinha voltado para procurar no sito para ver se encontro as outras meninas lá. Mas encontro apenas a mãe dela ao telefone. E noto que sou o primeiro a chegar, elas tinha telefonado há pouco tempo avisando que estavam na cidade já e estava voltando, e tinham parado para descansar um pouco num lugar, eu bebo uma xícara de café e vou ao encontro delas, as encontro no centro da cidade, as três estavam muito assustadas, cansadas e já estavam discutindo entre si, falo para irmos pra casa, tomar um banho e colocar uma roupa seca que todos precisávamos. Voltamos passando pelas ruas históricas da cidade, vendo cenas que não nos parecia possível que fossem verdade. Chegando de volta em casa, temos noticia de que lá no sitio eles estão isolados mas estão todos bem, inclusive a menina que ficou pra trás, ela estava com o pessoal num lugar alto e seguro. A mãe dela está mais calma e vamos então nos acalmando aos poucos,. Era mais ou menos 9:30 quando alguns outros chegaram do sitio, avisando que quem estava com as casas alagadas tinha conseguido vir pra cidade já, estávamos ainda todos muito assustados, sem conseguir acreditar no que tinha acontecido. E acontecido numa noite de réveillon, quando estávamos comemorando, celebrando e jamais esperando passar por tudo que passamos. O ano começou a menos de 10 horas e já era inacreditavel, incompreensível e inesquecível.

Dessa forma nascia esse ano de 2010 e dessa forma íamos rumo ao desafio de realizar um Oasis no final do mês.

Desculpem pelo tamanho deste post, agora é que começa mais precisamente a atividade coletiva transformadora, mas na verdade não poderia deixar de contar o que aconteceu naquele 1º de Janeiro, para contar a história que viveriamos no final daquele mesmo mês.

Oasis Paraty [Etapa Mão Na Massa]

24/01/2010

Era um Domingo e estávamos nos últimos preparativos, recepcionando o pessoal que vinha chegando, correndo contra o tempo para que tudo aconteça da melhor forma possível.

Como mais ou menos no começo da tarde de Domingo já tinha chegado um bom número de pessoas, preparamos o CIEP, dividimos tarefas, alojamos os recém chegados, e demos inicia aos primeiros momentos de união do grupo. O dia seguinte, a segunda-feira estava especialmente preparada para ser o dia do Alinhamento do Oasis Paraty. Como a minha experiência de Oasis havia sido o do Oasis Santa Catarina, e notando o quanto pode-se unir as pessoas que jogarão juntas, alinhando-as no que é o objetivo que está sendo proposto de experimentação e o quanto é importante o fator da coletividade nesse desafio.

25/01/2010

Finalmente chega o dia! O café da manhã dá a largada não antes de o grupo encarregado de acordar fazer seu trabalho. A manhã foi designada para fazermos nossos Totens e fazer a dinâmica do Barbante e da Caneta na Garrafa. E ainda antes do fim da manhã nos organizamos e conseguimos carros suficiente para fazer as viagens necessárias para irmos todos para a Cachoeira da Jamaica, saindo de cidade, subindo pela Paraty-Cunha cerca de 6 kilômetros, levamos frutas e alimentos para que pudéssemos ficar lá tempo suficiente para aproveitarmos ao máximo aquele momento. Fizemos um Anana Rei até que se perca totalmente a noção do tempo, pelo menos pra mim.

A noite mais tarde dividimos os participantes pelas duas comunidades Matadouro e Mangueira, a Renata era a Facilitadora do Matadouro e eu da Mangueira. Explicamos c Jogo Oasis para todos e preparamos os grupos para o dia seguinte que seria o Dia na Comunidade.

26/01/2010

O Dia na Comunidade começa com as duas equipes das duas comunidades fazendo a Dinâmica dos Olhos Vendados em seus respectivos bairros. Confesso que para mim foi impressionante, após tanto tempo com a venda quando a retirei demorei alguns segundo para conseguir enxergar corretamente, após tanto tempo com aqueles outros sentidos aguçados foi uma experiência inesquecível e surpreendente.

Na segunda metade da manhã nos separamos em trios para realizar o Convite para as comunidades para irem ao CIEP (Matadouro) e na APAE (Mangueira).

A Tarde é feito o Café Comunitário e a proposta e prática das etapas do Olhar, do Afeto, do Sonho e do Cuidado, com a Projetação e as confecções das maquetes de cada cuminidade.

27/01/10

E eis que chegávamos finalmente ao tão esperando Mão Na Massa, o primeiro dos 4 dias previstos, o inicio da realização do Milagre, de fazer ele acontecer com as próprias mãos e cooperação direta com as comunidades e a sociedade paratyense que colaborou de forma maravilhosamente bela para que o Oasis Paraty virasse realidade.

Pela noite os grupos fazem reuniões num só coletivo na escola. É hora de muitos colocarem emoções fortes que estavam guardadas. Com o Luto e Celebração e preparações para a quinta-feira.

28/01/10

2º Dia de Mão Na Massa

Os mutirões mostram-nos o bom e velho ensinamento do “Vai piorar, depois vai melhorar. Depois vai piorar de novo e depois vai melhorar de novo!”

29/01/10

3º Dia de Mão Na Massa

A sexta-feira de sol forte no verão tropical banha nosso dia e o Jogo ruma para seu 6º dia.

30/01/10

O Sábado, último dia previsto do Mão Na Massa acabou com os planejamentos para a Celebração do Domingo, 7º e último dia do Oasis Paraty, mas não antes dos retoques finais para deixar as comunidades da forma que nos desafiamos a ver se conseguimos conseguir fazer elas ficarem.

31/01/10

Com o consenso de que todos desejavam utilizar parte do dia destinado a Celebração para dar o ponto final nos mutirões, tarefa das mais difíceis de conseguir deixar todos participantes sem querer aperfeiçoar detalhes, inventar mais uma pequena coisa que possa ser incluída. Este dia era destinado também ao momento de que fosse oferecidos Presentes que quiséssemos dar a comunidade, então deixar os novos Oasis o mais belos e vivos possível foi  possível nesse dia. O grupo de maracatu da cidade Palmeira Imperial, do qual diversos participantes do Oasis Paraty são componentes se apresentou ao fim da tarde dando sons marcantes e batidas que vibrariam o encerramento da Etapa do Mão Na Massa, e também início a festa realizada na Celebração de todo Oasis em conjunto, as comunidades, os participantes, pessoas que participaram em algum momento, houve apresentação do palhaço espanhol e também um senhor morador do Matadouro deu uma aula de Congada.

O Oasis Paraty para mim foi a realização de um sonho pessoal que só pode ser realizado em coletivo, em elo comunitário e em abraço societal. Na soma de forças de cada pessoa que em algum momento daqueles dois meses de preparação fizeram parte de algum modo para que todas as etapas fossem realizadas, na união de amigos, de famílias, vizinhos, crianças, desconhecidos, antigos conhecidos, de histórias e caminhos parecidos, de vidas diferentes e parecidas que se percebem unidas num objetivo comum, para o bem comum, para empoderarem a si mesmas e umas as outras.

Este Oasis foi feito pela enorme maioria de pessoas que não haviam entrado em contato com a Metodologia Oasis anteriormente e se desafiaram a permitirem-se tentar, experimentar, ousar, protagonizar e transformar. Foi belo e fortalecedor ver como tantas pessoas conseguiram entrar em contato com lugares de suas próprias realidades que não imaginavam antes.

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